Uma síntese de Gabriela Otto sobre um Roundtable de Diretores de Vendas e Marketing da HSMAI Brasil reuniu cinco movimentos que já não cabem em conversas separadas: RevPAR não explica tudo; venda direta não é automaticamente a mais rentável; práticas históricas precisam ser reabertas; a Reforma Tributária chegou à mesa comercial; e a inteligência artificial desloca o valor do Revenue Manager do cálculo para a decisão.

O fio que une os cinco é simples: vender mais receita não garante produzir mais resultado. Revenue Management deixa de ser uma disciplina de tarifa quando acompanha a reserva até o efeito econômico que ela provocou.

RevPAR continua certo. A pergunta ficou maior.

RevPAR combina diária média e ocupação numa medida comparável: receita de apartamentos dividida pelos quartos disponíveis. Ele continua excelente para mostrar como o inventário de quartos foi monetizado e para comparar períodos ou mercado.

O limite está no que a fórmula não vê. Duas reservas com a mesma diária produzem o mesmo RevPAR. Mas podem carregar comissões, mídia, meios de pagamento, benefícios, cancelamento, custo de servir e consumo interno completamente diferentes. Também ficam fora do indicador as receitas de alimentos e bebidas, eventos, spa e outros serviços.

A mudança de pergunta

RevPAR responde quanto o inventário de quartos gerou. A gestão de rentabilidade precisa responder quanto ficou, por que ficou e qual decisão consegue repetir esse resultado.

Isso não aposenta o RevPAR. Coloca-o no lugar certo: o começo da análise, não a conclusão. A própria STR define, ao lado dele, TRevPAR e GOPPAR para enxergar respectivamente a receita operacional total e o lucro operacional bruto por quarto disponível.

Venda direta não vem com certificado de maior margem.

Uma reserva direta evita a comissão explícita de uma OTA. Ainda assim, pode exigir mídia paga, motor de reservas, CRM, programa de fidelidade, equipe da central, desconto exclusivo, taxa do pagamento e custo de recuperação de abandono. O canal intermediado mostra parte do custo numa linha clara; o direto costuma espalhá-lo por vários centros de custo.

A comparação madura não opõe “direto bom” a “OTA ruim”. Ela calcula a contribuição líquida da reserva por canal, segmento, produto e janela de compra. O canal que custa mais pode trazer demanda incremental, antecedência ou mercado que o hotel não alcançaria sozinho. O canal aparentemente barato pode apenas capturar uma procura que já existia depois de consumir mídia e desconto.

É por isso que a abordagem de Profit-Oriented Revenue Management da HSMAI inclui custo de aquisição, custo do produto, contribuição marginal e flow-through. A reserva interessa pelo que acrescenta ao negócio, não pelo selo do canal.

Quarto de hotel com área de estar, mesa de trabalho e serviço de boas-vindas
O produto inteiro. A diária aciona apartamento, limpeza, utilidades, distribuição e, em muitos hotéis, receitas adicionais. Foto: Antonio Araujo / Unsplash, sob a Licença Unsplash. Imagem recortada.

Uma métrica não substitui a outra. Elas formam uma escada.

O erro seguinte seria procurar um novo número único para resolver a limitação do RevPAR. Não existe indicador capaz de servir ao mesmo tempo ao preço diário, à produtividade dos canais, à operação e à demonstração de resultado. O painel precisa declarar qual pergunta cada métrica responde.

MétricaO que enxergaO que ainda deixa de fora
RevPAR Receita de apartamentos por quarto disponível. Custo de aquisição, outras receitas e despesas.
TRevPAR Toda a receita operacional por quarto disponível. Continua no topo da demonstração, antes dos custos.
ARPAR Receita ajustada por custos variáveis e receitas adicionais. A fórmula varia entre casas; só compara períodos quando a definição fica congelada.
GOPPAR Lucro operacional bruto por quarto disponível. É retrospectivo e ainda não representa o lucro líquido final.
Flow-through Quanto da variação de receita atravessou para o lucro. Exige períodos comparáveis e uma DRE gerencial consistente.

ARPAR pode aproximar a leitura da contribuição por quarto, desde que custos variáveis, receitas acessórias e custo de distribuição tenham definição estável. GOPPAR avança mais porque inclui receitas e despesas operacionais. Mesmo ele não é a última linha contábil. Para chegar ao resultado final, Revenue e Financeiro precisam reconciliar o painel com a DRE.

A Reforma Tributária já é variável comercial.

A Lei Complementar 214 colocou a hotelaria em regime específico de IBS e CBS. O texto vigente define como base o valor da operação e reduz em 40% as alíquotas de referência para os serviços hoteleiros. Isso significa aplicar 60% da alíquota de referência, e não uma alíquota final de 40%.

Há outras duas decisões econômicas relevantes na mesma seção da lei: o hotel pode apropriar créditos de IBS e CBS nas suas aquisições, observadas as regras gerais; o comprador do serviço de hotelaria não pode tomar esses créditos. Alimentação e bebidas fornecidas pelo hotel seguem as regras específicas de bares e restaurantes, o que torna necessária a segregação correta dos itens.

Esse desenho atravessa preço, pacote, margem e negociação corporativa. Uma tarifa pode preservar RevPAR e perder contribuição quando o tratamento tributário, o mix do pacote ou o custo de entrega muda. Em contratos B2B, a vedação de crédito para o comprador também entra na economia da negociação.

O que vale em 2026

2026 é o ano de teste de IBS e CBS. A Receita Federal orientou a adaptação dos documentos fiscais e o destaque individualizado dos tributos. A transição segue até 2033. Isso não autoriza improvisar uma “nova alíquota” no tarifário: exige simular cenários com Fiscal, Financeiro, Tecnologia e Comercial na mesma mesa.

A Reforma Tributária não pede que o Revenue Manager vire tributarista. Pede que a decisão comercial pare de tratar imposto como uma linha fixa que alguém calcula depois. Classificação, segregação, crédito e transição alteram a contribuição prevista de cada venda. A política precisa ser validada com a assessoria fiscal da empresa antes de entrar em produção.

A IA acelera o cálculo. A meta continua sendo uma escolha humana.

Previsão de demanda, leitura de ritmo, detecção de anomalias, comparação de cenários, recomendação de preço e distribuição são terrenos naturais para modelos analíticos. A máquina consegue repetir essas leituras com frequência e escala que uma equipe humana não sustenta.

Mas todo modelo otimiza o objetivo que recebeu. Se a meta é apenas RevPAR, ele pode recomendar uma decisão excelente para o topo da receita e ruim para a margem. Se comissão, cancelamento, tributação, custo variável e capacidade operacional não entram na base, a inteligência artificial apenas produz uma resposta mais rápida para uma pergunta incompleta.

Estudos sobre a interação entre profissionais de Revenue e sistemas automatizados mostram também que o julgamento humano não é neutro: confiança excessiva, resistência e vieses alteram quando uma recomendação é aceita ou ignorada. Governança não é escolher entre pessoa e algoritmo. É definir quem propõe, quem decide, quais limites não podem ser ultrapassados e como o resultado volta para o modelo.

A função do Revenue Manager sobe de nível quando deixa de operar a conta e passa a responder pela qualidade da decisão.

Isso exige capacidade analítica, leitura de negócio, comunicação e influência. A IA reduz o trabalho de compilar sinal. O profissional conecta o sinal a Marketing, Vendas, Operações e Financeiro, registra a decisão e acompanha se ela chegou à margem prometida.

O novo ritual cabe numa página.

Um hotel não precisa esperar por um projeto tecnológico amplo para começar. Precisa primeiro alinhar a linguagem econômica que seus times usam. A revisão semanal pode seguir seis perguntas:

  1. O que mudou na demanda? Ritmo, janela, cancelamento, segmento, canal e motivo da viagem.
  2. Qual receita apareceu além do quarto? Alimentos e bebidas, eventos, spa, estacionamento, upsell e demais produtos.
  3. Quanto custou adquirir e entregar? Comissão, mídia, desconto, pagamento, fidelidade, central e custo variável.
  4. Qual regra tributária atravessa a venda? Classificação, segregação, crédito, vigência e cenário validado pelo Fiscal.
  5. Qual decisão tem dono? Preço, inventário, campanha, condição comercial ou pacote, sempre com prazo.
  6. Quanto chegou à última linha? Contribuição, GOP, flow-through e reconciliação com a DRE.

O panorama geral é menos uma troca de indicador e mais uma troca de governo. RevPAR segue na mesa. Ao lado dele entram custo de aquisição, receita total, contribuição, efeito tributário e lucro operacional. A IA organiza e antecipa a leitura. A decisão continua tendo um responsável.

Quando Revenue, Marketing, Vendas, Operações, Financeiro e Fiscal olham para definições diferentes, a tecnologia acelera versões concorrentes do mesmo hotel. Quando compartilham a mesma conta, o trabalho deixa de terminar na tarifa. Termina no resultado.

Fontes abertas

  1. Gabriela Otto, síntese do Roundtable de DORMs da HSMAI Brasil, LinkedIn, ago. 2026.
  2. STR, P&L Data Reporting Guidelines, definições de RevPAR, TRevPAR, GOPPAR e outros indicadores.
  3. HSMAI Academy, An Introduction to Profit-Oriented Revenue Management, 2023.
  4. Lei Complementar 214/2025, texto atualizado, especialmente arts. 280 a 283.
  5. Receita Federal, Orientações da Reforma Tributária para 2026, atualizadas em 6 maio 2026.
  6. Receita Federal, Entenda a Reforma Tributária do Consumo, cronograma de transição atualizado em 3 jul. 2026.
  7. Mohammed e Denizci Guillet, interação humano-algoritmo e decisões de override em Revenue Management, International Journal of Contemporary Hospitality Management, 2025.
  8. Duc Van, fotografia de recepção de hotel, Unsplash, 2025.
  9. Antonio Araujo, fotografia de quarto de hotel, Unsplash, 2026.